Jim Furyk já se posicionou como azarão para a Ryder Cup de 2027, numa jogada que marca o primeiro lance da disputa. O capitão dos Estados Unidos admite que a equipa tem tido “problemas” recentes, sobretudo nos foursomes, e prometeu que a formação norte-americana chegará “preparada” ao Adare Manor, em 2027.
“Somos os azarões. Eu sei que sempre foi assim, nós chegamos e os americanos parecem ser os favoritos”, afirmou Furyk esta semana, na conferência de imprensa do “Year to Go”. “Este ano, não há qualquer hipótese de isso acontecer. Somos os azarões. Compreendemos isso. Temos muito trabalho pela frente. Estou entusiasmado com esse processo. Sou um homem de processos, gosto de pôr tudo em ordem e colocar estes rapazes numa boa posição, e deixar que os nossos jogadores saiam e mostrem o seu talento.”
Convencer-se a si próprio e à equipa de que são os azarões, os subestimados ou os desrespeitados, é uma tática motivacional antiga que continua a ser usada em equipas desportivas por todo o mundo. É por isso que Kirby Smart, treinador de futebol americano da Geórgia, costuma dizer que “todos” deram a sua equipa como derrotada, mesmo quando ela lidera consistentemente os rankings e as odds para o título nacional. Dabo Swinney refere-se frequentemente à sua equipa como “o pequeno e velho Clemson”, recordando os tempos em que os Tigers eram vistos um degrau abaixo da elite do desporto. Já o defesa Richard Sherman convencia-se regularmente de que o adversário o desrespeitava, apenas para se motivar antes do pontapé de saída (veja-se o caso de Baker Mayfield, em 2019).
A capitania da Ryder Cup tem-se tornado cada vez mais uma questão de construir a química de equipa, escolher os pares certos e acionar as alavancas certas para tirar o máximo de um grupo de golfistas de classe mundial. Não surpreende, por isso, que Furyk tenha olhado para uma equipa americana dominada nas duas últimas edições, incluindo a derrota em casa em Bethpage, e que não vence na Europa desde 1993, e tenha reclamado para si o papel de “azarão”. Neste momento, qualquer alavanca que um capitão norte-americano possa puxar e que possa funcionar vale a pena ser tentada.
Mas Luke Donald não estava disposto a ceder voluntariamente o terreno de “azarão”. Os europeus têm prosperado nesse papel desde que os Estados Unidos os derrotaram categoricamente em Whistling Straits, em 2021.
“Concordo”, disse Donald, quando questionado sobre a afirmação de Brandt Snedeker, capitão da equipa da Presidents Cup, de que a equipa dos EUA “será um problema” no Adare Manor. “Não tenho qualquer complacência sobre a força dos Estados Unidos. Eles são sempre fortes. No papel, tendem a ser mais fortes do que nós segundo o ranking mundial. Obviamente, temos um grande historial em casa, mas, mais uma vez, zero complacência. Eu vi o que o Jim tem feito nos bastidores, a mudar as estatísticas e o sistema de qualificação. Ele está muito, muito motivado para vir cá e travar uma boa batalha. Eu estou igualmente motivado para continuar a encontrar vantagens para a minha equipa. Mas sei que os EUA vão ser muito fortes.”
Uma mentalidade, não apenas um rótulo
Donald, que pretende tornar-se o primeiro capitão a vencer três Ryder Cups consecutivas, construiu uma cultura vencedora que uniu e trouxe o melhor de um grupo de jogadores de classe mundial, habituados a jogar por si próprios 103 em cada 104 semanas. Para isso, tem-se concentrado nos pequenos detalhes, na criação de uma boa experiência para os seus jogadores, na exploração da história da Ryder Cup, no significado de representar a bandeira europeia e na ideia de que são os azarões.
“Neste momento, somos guardiães desta camisola europeia”, disse Rory McIlroy após a vitória europeia em 2023. “E esperamos passá-la no futuro numa situação melhor do que aquela em que a encontrámos.”
“É a capacidade de atravessar aqueles portões e aquelas portas e esquecer quem és fora desta semana. O que fizeste ou o que possas fazer depois, realmente não importa”, afirmou Jon Rahm.
Quando se joga por algo maior do que si próprio e se acredita que foi dado como derrotado, que se espera que perca, uma força galvanizadora costuma entrar em ação, levando todos a elevar o seu nível. Foi precisamente o que aconteceu com uma equipa europeia que adere a tudo o que Donald propõe.
Assim, enquanto Furyk tentava tirar o terreno de azarão aos europeus, Donald respondeu, explicando que ser azarão é mais do que uma declaração. É uma ética.
“Para nós, ser azarão é uma mentalidade”, disse Donald. “Queremos sempre provar algo a nós próprios, ao resto do mundo. Sim, percebemos que jogar em casa é uma vantagem, mas também sabemos que os EUA são muito fortes.”
Uma disputa que vai durar um ano
Esta batalha vai prolongar-se durante o próximo ano. Os norte-americanos vão falar de Bethpage e do domínio dos europeus em solo europeu. Os europeus vão responder com os rankings mundiais oficiais. Quem vencer os quatro majors em 2027 vai moldar ainda mais a luta pelo papel de “azarão”. Caberá aos capitães tentar aproveitar essa narrativa a favor da sua equipa. Para Donald, será mais do mesmo: tem um método comprovado para tirar o melhor da sua equipa. Para Furyk, convencer um plantel americano cheio de talento de que são eles os duvidados pode ajudar muito a concretizar algo que poucos acreditam ser possível. Pode ser a sua única esperança.
“Vai ser difícil”, disse Furyk sobre a conquista na Irlanda. “Os adeptos irlandeses e o desporto irlandês são incríveis, mas as pessoas vão chegar em massa de toda a Europa para apoiar os seus compatriotas favoritos, e eu preciso de 12 homens. Tenho dito isto a semana toda: preciso de 12 jogadores que adorem essa atmosfera e que adorem entrar num ambiente desses, porque isso exige uma certa mentalidade, e são esses os jogadores que vou procurar.”
O caminho para a vitória no Adare Manor já começou. Aos azarões pertencem os louros.